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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Vida em Matilha ou em Vida em Família?

O comportamento social é resultado de um processo evolutivo onde ser social mostrou ser uma vantagem adaptativa. Isso significa dizer que ao manterem-se juntos, os animais da mesma espécie tem  como conseqüência vantagens em termos de sobrevivência (proteção contra predadores, eficiência na alimentação, divisão de trabalho e evolução cultural) e sucesso diferencial na procriação.

O que caracteriza um agrupamento de animais como uma sociedade é que:

O grupo é constituído por um determinado conjunto de indivíduos de uma só espécie animal Há uma nítida atração entre os membros do grupo com uma associação longa Os membros do grupo comunicam-se entre si Há um alto nível de cooperação entre os membros. Divisão de trabalho, reconhecimento individual A atividade dos membros é freqüentemente sincronizada - especialmente durante a alimentação, descanso, deslocamento e acasalamento O comportamento de apego é uma classe do comportamento social que visa a manutenção e restabelecimento da proximidade entre o filhote e sua mãe.

Tal comportamento pode ser observado:  
  • Sempre que o filhote perceber a ausência ou distanciamento visual, auditivo, tátil ou olfativo da mãe.
  • Quando ocorrer um evento (eventos associados a perigo, ambientes desconhecidos, presença eminente de predadores) que desencadeie o comportamento( vocalização e movimentação característica).
  • Quando a mãe busca manter o filhote próximo impedindo seu afastamento.

O comportamento de apego em termos evolutivos está associado a proteção contra predadores e por isso aumentar a probalidade de sobrevivência e de sucesso reprodutivo do filhote. Também está associado a obtenção de alimento e calor além de oferecer ao filhote a possibilidade de aprender com a mãe ou com as figuras associadas a cuidados maternos. Após um período que varia segundo a espécie, este sistema comportamental sofre mudanças e passa a ser ativado com menos facilidade. O filhote passa a explorar seu ambiente e aumenta suas atividades lúdicas. A mãe que inicialmente restringia o afastamento do filhote passa a rejeitá-lo e afastá-lo, desencorajando a proximidade excessiva.  O comportamento de apego não desaparece totalmente na vida adulta de muitos mamíferos, ocorre uma mudança das figuras para com quem o comportamento de apego é dirigido e desse modo a forma como o vínculo com a mãe desenvolveu-se, pode desempenhar um papel importante na determinação dos padrões de relações sociais entre animais adultos. A proteção contra predadores parece ser a principal função do comportamento de apego entre animais sociais. Ao primeiro sinal de alarme a presa procura reunir-se ao agrupamento, diminuindo a probabilidade de ser atacado, uma vez que os predadores procuram suas presas entre os animais isolados. O comportamento é facilmente eliciado na presença de sinais de alarme, quando se pressente ou suspeita da presença de predadores, especialmente entre os filhotes, fêmeas gravidas e animais doentes.

O Homem e o cão pertencem a grupos sociais diferentes mas sua associação mostrou-se vantajosa para ambas as espécies. Por outro lado o cão fica a mercê do controle e seleção feita pelo homem.

Segundo dados arqueológicos a domesticação do cão teria ocorrido há aproximadamente 14.000 anos quando o lobo foi trazido para dentro da estrutura social humana. Para tanto o processo de amansamento já estaria ocorrendo desde o momento que agrupamentos de lobos passaram, graças a facilidade na obtenção de alimentos, a habitar próximos aos assentamentos humanos. Esses grupos tornaram-se isolados reprodutivamente da população mais selvagem dando início ao processo que levaria a linhagem dos cães. Segundo Hemmer (1990) a principal mudança ocorrida seria a sua "percepção de mundo". Isto significa que enquanto uma alta sensibilidade e estado de alerta combinado com reações rápidas ao estresse seriam necessárias para a sobrevivência do animal no estado selvagem, características opostas de docilidade, diminuição do medo, e tolerância ao estresse são os requisitos da domesticação. Para que isto fosse possível mudanças estruturais deveriam ocorrer. Entre outras, mudanças hormonais, redução no tamanho do cérebro, diminuição da acuidade e sensibilidade da audição e visão e retenção das características e comportamentos juvenis na vida adulta.

Ao observarmos a interação entre o Homem e o cão doméstico poderemos identificar um padrão nesta relação que se assemelha ao comportamento de apego. Por um lado o comportamento maternal por parte do proprietário e do outro o comportamento do cão. Ao adquirir um cão com idade entre 5 e 7 semanas de idade, o proprietário estará participando do processo de desenvolvimento do apego e do período de sociabilização canino que se estende até as 16 semanas de idade. Nesta fase o comportamento de apego está em transição, a cadela diminui a intensidade de monitoração do filhote desencorajando a proximidade excessiva enquanto o filhote, por sua vez, passa a explorar o seu meio ambiente e inicia as relações com seus irmãos na ninhada. A forma como o proprietário se relacionar com o cão irá contribuir no estabelecimento do padrão do comportamento de apego entre ele e seu cão.

O comportamento de apego deve ser diferenciado do termo dependência. O termo dependência refere-se ao grau em que um indivíduo se apóia e confia em outro para a sua existência. O termo dependência tem um cunho depreciativo contrário ao comportamento de apego que está associado a relações de caráter social, um fator de coesão do grupo. Chamar a relação entre o Homem e um cão de comportamento afiliativo (termo sob o qual se classificam todas as manifestações de amizade e boa-vontade, de desejo de fazer coisas na companhia de outros) parece não ser adequado devido ao seu caráter abrangente e indiferenciado, enquanto o comportamento de apego contem em sua manifestação a possibilidade da variação no padrão como as relações individuais ocorrem.

O comportamento de apego, como uma classe do comportamento social,  possibilitou a domesticação do cão  animal silvestre até a sua  condição de animal de companhia, A observação de caracteres juvenis característicos em filhotes de canídeos selvagens ocorrerem  em cães domésticos adultos conseqüente da seleção destes caracteres ao longo da filogênese do cão (neotínea).

Porque ser social?
  • Vantagens proteção contra predadores
  • eficiência na alimentação
  • eficiência na reprodução
  • criação da prole
  • altruísmo
  • divisão de tarefas
  • evolução cultural
  • Desvantagem
  • competição entre os indivíduos;
  • doenças.
Para entender-se o comportamento social de qualquer espécie animal é importante estudar:
  1. Como ocorre a formação de laços e vínculos;
  2. Quais são as características do comportamento agonístico;
  3. A interação social através da limpeza social - grooming;
  4. Como ocorrem as relações de dominância e subdominância;
  5. Como se da a organização, a cooperação e o altruísmo;
  6. Quais são as atividades sincronizadas;
  7. Comunicação;
  8. Comportamento ritualizados.
Tabela 1   Comportamento Social de canídeos selvagens

Tipo I: formação temporária de pares entre machos e fêmeas durante a estação de cruza. O macho geralmente fica com a fêmea, assiste ao parto, traz comida e protege o ninho.

Tipo II: Pares permanentes, os jovens ficam com os pais até a próxima estação reprodutiva. Se houver comida suficiente eles podem permanecer em grupos familiares e auxiliar na criação de futuros filhotes, mas o mais comum é que eles se dispersem e formem seu próprio território.

Tipo III: Nesse tipo há formação de matilhas geralmente de animais aparentados. Normalmente somente uma fêmea e um macho cruzam. O restante dos integrantes tem comportamento altruístico, além de caçar em grupo. Fox (1978).

Tabela de Períodos de Desenvolvimento Canino
PeríodoInícioComportamento
NeonatalNascimento -14 dias
Dorme 90% do tempo, rasteja, mama, procura contato corpóreo, endireitamento, estimulação anal necessária.
Transição15 - 21 dias   
(até 3 semanas)
Olhos abertos, primeiros dentes, apoio sobre as 4 patas, primeiros passos. Lambe líquidos, defeca sozinho, mama de pé ou sentado.
Socialização I3 - 4 semanas
Ouve, enxerga, olfato se aprimora. Ingestão de alimentos sólidos. Abana cauda, brinca, morde irmãos.
Socialização II5 - 7 semanas
Mímica facial, curiosidade, exploração, atividades grupais e jogos sexuais. Início do estabelecimento da ordem de dominância.
Socialização III7 - 8 semanas
Desenvolvimento pleno da capacidade auditiva e visual. Investiga tudo. Medo de ruídos súbitos, fortes, objetos em movimento. Cautela em relação aos objetos, animais e pessoas estranhas.
Socialização IV9 - 12 semanas
Desenvolvimento de comportamentos nítidos de dominância e subordinação. Aprendizagem de Habilidades motoras. Atenção curta.
Juvenil3 - 6 meses
Retraimento. Brincadeiras com vocalização.
Adolescente6 meses
Início da puberdade.

Fonte: Dr. Mauro Lantzman - Médico Veterinário - Homeopata e Etólogo - São Paulo - SP - Saúde Animal - Cães.
Este artigo foi publicado originalmente no site do Dr. Mauro Lantzman
Todas as fotos são dos nossos cães.

Bibliografia:

FUCHS, H.; WATANABE, O.M. I Curso de Comportamento Animal. 1997.
LOMBARD-PLATET, VLV; WATANABE, OM; CASSETARI, L. Psicologia Experimental.
Manual teórico e prático de analise do comportamento. São Paulo:Edicon,1998.
OVERRAL, K.L. Clinical Behavioral Medicine for small animals. Missouri: Mosby, 1997.
FOX M.W. Behaviour of Wolves, Dogs and related canids. New York: Harper & Row Publishers, 1971
O'FARRELL, V. Manual of canine behaviour. 2 ed. – Cheltenham: BSAVA, 1992.132 p.
BOWLBY, J. Apego. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1990
SERPEL, J.: The domestic dog: its evolution, behaviour and interaction with people. 2 ed. – Cambridge: Cambridge University Press, 1997. 240 p.

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